quarta-feira, 2 de setembro de 2009

POR ONDE ANDARÁ HÉRCULES?

Ubiratan Jorge Iorio



“O governo Lula interferiu nas carreiras de Estado de forma sistemática. Fez isso tantas vezes que ao longo de sete anos o país foi achando natural o que não se pode aceitar”.

A frase acima não é minha, nem tampouco de algum outro economista ou analista considerado “liberal” ou “conservador”. É da jornalista Miriam Leitão – que está longe de poder ser carimbada ou tachada com esses adjetivos ou outros semelhantes -, em sua coluna no jornal O Globo de 26 de agosto.



Comentando o que denomina de “rebelião na Receita Federal”, a conhecida jornalista econômica frisa corajosamente não tratar-se de um fato isolado, mas em autêntica marca do governo Lula, que é a confusão – deliberada, preciso adicionar – entre Estado e governo. E cita os casos calamitosos de aparelhamento, vale dizer, de invasões de hordas de “companheiros” e de sindicalistas, verificados no IPEA, no BNDES e no Itamaraty, aos quais acrescento os de Furnas (em que um dos diretores acaba de pedir demissão por ser contra o referido processo), da Polícia Federal, de certos órgãos do Judiciário, das agências reguladoras, da Petrobras, da Eletrobrás e, de um modo geral, das demais empresas estatais. Muito provavelmente, o mesmo vai ocorrer nas que o governo pretende criar, como a que vai cuidar do “pré-sal”, na contramão da racionalidade e do bom senso, que aconselham claramente, ao invés de mais uma estatal, o modelo de concessão com cobranças de royalties e participações especiais, por ser mais eficiente e dar menos margem à corrupção. Se Roberto Campos ainda estivesse entre nós, podemos imaginar o que diria ao saber que, além da Petrossauro, teremos agora a Petrosal-ro...



Só na Receita, até hoje, foram seis dezenas de pedidos de exoneração de altos postos; os jornais dão-nos conta do absurdo da existência de diversos “grupos” em guerra no seio do órgão, o de Lina Maria Vieira, o de Everardo Maciel, o de Jorge Rachid (todos ex-secretários) e o de Nelson Machado, secretário-geral do Ministério da Fazenda. Parece que apenas os contribuintes não contam com um “grupo” lá dentro...



No IPEA, que há meses realizou um concurso com critérios absurdos de seleção, o presidente Pochmann – aquele mesmo que, quando assumiu o posto conduzido pelo ininteligível Mangabeira Unger, declarou que o Estado no Brasil seria “mínimo” - acaba de divulgar um de seus “comunicados da presidência” que, entre uma e outra agressão à lógica econômica, sustenta que a produtividade do setor público cresceu mais do que a do setor privado, baseado em metodologia que simplesmente manda às favas qualquer consideração minimamente científica, para ajoelhar-se diante da ideologia do Estado-elefante, já que a atividade econômica privada tem o que contabilizar como produção, enquanto que no setor público esta é calculada pelo aumento dos salários e das despesas. Como escreveu Miriam Leitão, o outrora respeitado IPEA está comparando alhos com bugalhos. Em resposta à jornalista, o instituto, em novo “comunicado presidencial”, alegou que a metodologia utilizada para computar a produtividade é a mesma de outras instituições internacionais. Ora, isto, a rigor, não é uma defesa técnica, mas apenas um caso de transferência de responsabilidades, ridiculamente semelhante ao de um aluno que, tendo copiado a prova de outro e tendo recebido uma nota baixa, argumentou com o professor que a prova foi feita pelo colega e não por ele... É espantoso a que ponto esses ideólogos de meia tigela podem chegar!



No BNDES, no início do primeiro mandato de Lula, houve uma tentativa, sob a presidência de Carlos Lessa, de “lavagem cerebral esquerdizante” no quadro técnico, em que os economistas do banco, dos recém-concursados aos mais antigos, foram obrigados a frequentar um curso que tinha como objetivo principal transformá-los em fantoches heterodoxos (na linguagem deles, “desenvolvimentistas”) –, diga-se de passagem, da pior estirpe. Lembro-me bem das queixas, à época, de um colega da UERJ e também funcionário do BNDES, que possui o diploma de Doutor em Economia pela FGV assinado, nada mais nada menos, por Mario Henrique Simonsen, sobre o conteúdo ideológico do tal curso de “reciclagem” em Desenvolvimento Econômico que foi compelido a assistir como aluno.



No Itamaraty – e continuo relatando o que escreve a jornalista em O Globo – não tem sido diferente, a começar por aquela sinistra lista de livros obrigatórios, típica de ditaduras, e prosseguindo com a política de nomeações “seletivas” quando da promoção para postos importantes em países relevantes, em que o requisito básico para assumir as principais embaixadas passou a ser o da lealdade ao grupo que está ocupando o governo.



Poderia citar inúmeros outros casos, mas prefiro mencionar outra frase da jornalista: “O governo Lula ficará na história como o que mais aumentou o gasto de pessoal, o que mais contratou funcionários, e o que mais profundamente feriu a idéia de que os funcionários de carreira servem ao Estado e não a governos”.



Vou apenas acrescentar aquilo que os que têm um mínimo de bom senso já estão fartos de saber: que o aparelhamento do Estado pelo partido do presidente (e os de seus aliados) - vale dizer, pelo PT, pelo PMDB e por outras siglas que, embora menores, não o são em termos de oportunismo - é um processo muito perigoso para a democracia e, portanto, para o futuro do país, como também é perigoso e preocupante o Palácio do Planalto apagar fitas de visitantes, a Casa Civil confundir os compromissos da agenda da ministra, o governo – que já acossara um caseiro - perseguir uma ex-chefe de gabinete da ex-chefe da Receita e usar de todos os meios para impedir uma CPI para investigar denúncias de irregularidades na Petrobras, emitindo um sinal claro, para quem sabe entender, de que quem deve realmente tem motivos para temer, mesmo em um país em que as CPIs costumam acabar em festa e em que o Supremo, em mais uma decisão contrária à opinião pública, inocenta Palocci de haver quebrado o sigilo bancário do referido caseiro...



Quando eles vão parar? Até onde pretendem ir? O que realmente desejam? Essa gente desconhece, ou melhor, simula desconhecer, em sua ânsia de realizar o seu projeto de poder, que governo é uma coisa – passageira e conjuntural – e Estado é outra – permanente e estrutural! Seu modelo parece seguir de perto o de Chávez, Correa, Evo, Cristina, Fidel e outros representantes vivos de Matusalém... Partidos políticos não podem servir-se do Estado nem com o objetivo de implantar as suas ideologias e nem para prover de empregos os seus afiliados e aliados!



Uma das grandes tarefas com que se defrontará um governo realmente preocupado com os destinos do país que nosso despreparado e desinformado povo um belo dia haverá de eleger (sonhar não é, ainda, proibido) será exatamente a de separar Estado e governo, promovendo a profissionalização de toda a burocracia. É evidente que, em uma democracia, uma burocracia profissionalizada não significa que funcionários públicos não possam ter as suas doutrinas, ideologias ou preferências políticas ou partidárias particulares, mas sim que sejam impedidos de colocá-las a serviço de qualquer grupo político, esteja este no governo ou na oposição, utilizando-se para tal de suas funções públicas, que são sustentadas pelos contribuintes.



Alguém, algum dia no futuro, terá que proceder ao desmonte dessa apropriação do Estado pelo governo, uma tarefa tão necessária quanto penosa e que exigirá tempo. Com efeito, os “companheiros” e aliados inoculados no pobre Estado brasileiro pelo rico governo brasileiro sob o comando do semi-analfabeto e arrogante presidente brasileiro são tão numerosos que se assemelham à Hidra, aquele animal da mitologia grega que habitava o pântano de Amione, em Lerna, irmã de Cérbero, o cão do inferno, de Ortro, o canino monstruoso de Gerion e de Quimera, monstro com cabeça de leão, corpo de cabra, cauda de serpente e que vomitava chamas. A Hidra possuía corpo de dragão e inúmeras cabeças de serpente (segundo as várias versões do mito, 7, 8, 9 ou até 10), que tinham a propriedade de se regenerar (ou seja, eliminava-se uma e surgia pelo menos mais uma no lugar) e, para completar, hálito venenoso – um mortífero bafo de onça! -, sendo que uma delas era imortal, exatamente aquela que Hércules, segundo alguns, em um dos doze trabalhos, abateu com uma pedrada na cabeça, embora, para outros, o herói grego tenha destruído todas, para não crescerem novamente...



Como o Brasil está precisando de um Hércules - um presidente que seja de fato um estadista - para vencer a Super Hidra do aparelhamento partidário do Estado brasileiro! Por onde andará ele? Infelizmente, não está no Olimpo, que não existe, nem despacha de Brasília, que, embora seja também um lugar que possui muito de fantasioso, infelizmente, existe, está lá, bem lá, naquela planura seca e sem graça... Por enquanto, esse personagem de que tanto carecemos ainda não deu as caras e o arremedo dele que vem comandando o país desde 2003, embora também goste de gabar-se de “façanhas” e use a barba crescida, não é musculoso, tem o abdômen proeminente, está muito mais para tribufu do que para os padrões helênicos de beleza e é amigo íntimo da Hidra, que se compraz em alimentar e engordar para seu próprio proveito.



Inquieta-nos profundamente que, ao perscrutarmos o quadro eleitoral que se desenha para 2010, não consigamos vislumbrar ninguém que acredite na necessidade de separar Estado e governo, senão vejamos: Dilma será o aprofundamento do aparelhamento; Heloísa é do PSOL, o que dispensa comentários; Marina, tampouco; Ciro, idem, principalmente depois que andou frequentando cursos nos Estados Unidos ministrados pelo professor Unger; Christovam é visto como ético, mas isto é apenas uma condição necessária, porém não suficiente para modernizar o país; Serra, embora possa estancar o processo, dificilmente se disporá a revertê-lo com profundidade, porque sempre foi um economista e político de esquerda, inclusive para os padrões do PSDB, que, a rigor, é um partido de esquerda; a direita, incompetente como de hábito, parece ter mais uma vez vergonha para sequer ensaiar um candidato e não terá coragem para apresentar um; e os liberais e conservadores, simplesmente, não têm ânimo, nem organização, não conseguiram aglutinar-se até hoje e, consequentemente, não têm representatividade política significativa.



Dilma, Heloísa, Marina, Ciro, Christovam ou Serra? Esquerda PAC, esquerda pitbull, esquerda verde, esquerda desbocada, esquerda educada ou esquerda poodle (travestida de social-democracia), eis, mais uma vez, as opções do pobre eleitor brasileiro!

Que democracia é essa, Madonna mia?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

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JÁ QUE LÁ NÃO DÁ.
EU LIBERO!

domingo, 23 de agosto de 2009

CUelhinhos



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segunda-feira, 29 de junho de 2009

ESPALHE

quinta-feira, 25 de junho de 2009

CREME ADOBE PHOTOSHOP






Taí a prova para quem não acredita no poder do Photoshop. Graças à tecnologia, Susana Vieira aparece linda e jovem na capa da revista Quem desta semana. Todos sabemos que a atriz de 66 anos é uma coroa conservada e jovial, mas daí a apresentar essa pele lisinha e sem marcas da idade já é um pouco de exagero, né?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

3259-6480

domingo, 10 de maio de 2009

CONTINUAÇÃO -

Conheci meu amor há quase três anos, pouco depois de chegar à Índia. Queria ter mais contato com jornalistas locais porque vim com a missão de escrever sobre o país em jornais brasileiros. Eles poderiam me dar boas dicas, informações e sugestões de reportagens. Uma amiga brasileira me deu o contato de um editor do maior jornal do país. Liguei para ele e combinamos de tomar um café. Foi paixão à primeira vista. Logo que começamos a conversar, percebemos que tínhamos coisas em comum: posições políticas, disposição para viagens, os mesmos gostos para livros e filmes, enfim, uma formação cultural próxima, apesar da distância dos nossos países. Quando ele me contou que uma das suas especialidades era a cobertura do Dalai Lama, fiquei extasiada. Sempre simpatizei com o budismo e esse era justamente um dos motivos pelos quais fui para a Índia. Ele me deu vários contatos para futuras matérias e prometeu ajudar no que precisasse.

Mas, logo nesse primeiro encontro, vivi uma saia justa cultural, por causa do sistema de castas. Um pouco antes de ir embora, ele me deu um livro explicativo sobre o assunto escrito por um 'dalit' (termo que significa oprimidos, os indianos que são chamados de intocáveis, situados no mais baixo patamar da pirâmide de castas do hinduísmo, geralmente voltados a trabalhos servis). Shobhan, esse é o nome do meu marido, ganhou mais um ponto positivo. Eu jamais conseguiria ser sequer amiga de alguém que apoiasse esse sistema que abomino. Nos despedimos à indiana: aperto de mãos, nada de beijinhos. Trocamos e-mails e combinamos de nos falar quando ele voltasse de uma viagem que faria à Inglaterra. Fui embora para casa repleta de curiosidade. Como todos os estrangeiros na Índia, queria saber como funcionava o sistema de castas. Também tinha vontade de descobrir à qual ele pertencia. Mas também sabia que pegava mal perguntar a casta de um indiano e resolvi não ser indelicada. Se fosse indiana, descobriria a origem dele pelo sobrenome. Mas Saxena, seu último nome, não me dizia nada.

Quando Shobhan voltou da viagem, escreveu-me. Se oferecia para me ajudar a conhecer a cidade. Aceitei. Fomos a um restaurante, conversamos sobre vários assuntos: o que estava acontecendo no mundo, na Índia. Percebi no olhar dele que tinha interesse por mim, mas ele sequer pegou na minha mão. Como a maioria dos indianos, Shobhan é tímido. Também percebi que não deveria dar o primeiro passo. Essa é uma tarefa dos homens. Nos despedimos com um aperto de mãos mais uma vez. Se fosse no Brasil, com certeza teria rolado uns beijinhos. Mas estava adorando aquela paquera. Combinamos de nos ver novamente.

A certeza de que ele estava interessado aumentava. Sempre estava disposto a me encontrar, inclusive nos sábados à noite. Íamos ao cinema, restaurantes, feiras de artesanato, exposições. Sempre como amigos. Ele me perguntava o que eu achava do país dele. Mas, eu não conseguia contar o choque. Só falava do lado positivo, que de fato existia: o privilégio de conhecer uma cultura milenar tão diferente da minha, poder escrever sobre um dos países que despontavam como potência emergente.

Eu sabia que na Índia as amizades entre homens e mulheres são raras. Shobhan era meu primeiro amigo em seis meses. Também estava ciente de que as mulheres ocidentais têm fama de 'fáceis' e não são muito respeitadas. Mas não dei a menor bola e não hesitei em continuar saindo com ele. Esse é um preconceito comum entre os homens do povo, que não é o caso de Shobhan. Ele é mais cabeça aberta do que a média dos indianos.

Depois de um mês nessa lenga-lenga, ele me convidou para passar alguns dias em um resort, em uma praia, perto de Mumbai. Disse que tinha chamado amigos e que faríamos um piquenique. Mas quando chegamos lá, ninguém apareceu. Ele escolheu um quarto com duas camas de solteiro para nós. Até hoje ele jura - sempre com um sorrisinho maldoso - que os colegas desistiram na última hora. Nos acomodamos, fomos tomar uma cervejinha e comer um peixe frito. Minha passagem de volta para o Brasil estava marcada e começamos a falar de planos. Ele me pediu para adiar a viagem. Queria me mostrar mais lugares na Índia, me levar para conhecer o Dalai. Foi seu jeito tímido de me pedir em namoro. Percebi que tudo aquilo estava sendo difícil para ele. Respondi que sim, mudaria a data do voo. Estávamos muito felizes.

Nosso primeiro beijo só aconteceu à noite, quando fomos para o quarto dormir juntos. Ele foi muito carinhoso, mexia no meu cabelo, passava a mão no meu rosto. Namorar na Índia é um exercício complicado. Os casais quase não se beijam em público sob o risco de serem presos por atentado ao pudor. Mesmo com o namoro oficializado, a gente só se beijava em casa ou em bares moderninhos.Não dormimos mais juntos durante semanas. Ele até me chamava para passar a noite na casa dele, mas percebia o desconforto na sua voz. Acho que fazia isso porque sabia que eu era ocidental. Na Índia, mesmo com uma população enorme, todo mundo comenta quando uma mulher dorme na casa de um homem com quem não é casada. Por isso, não ficava na casa de Shobhan nem de madrugada. Também não o convidava para dormir na minha. Ele ficaria constrangido.

Só consegui perguntar à qual casta ele pertencia depois de meses de namoro. Sua casta correspondia aos guerreiros, governantes, antigos reis. Mas ele, que sempre criticou o casteísmo, se converteu ao budismo como forma de protesto. O budismo não aceita a discriminação de castas.

Como todo bom indiano, Shobhan sempre me perguntava se casaria com ele. Achava que ele estava brincando e respondia, 'sim'. Minha passagem de volta para o Brasil tinha sido apenas adiada, mas ainda existia. Eu estava dividida. Ficava angustiada ao pensar que não ficaria mais com Shobhan, mas, imagine, sentia saudade até do conforto e da organização do trânsito de São Paulo, de falar a minha língua. Na Índia, os carros, motocicletas, motonetas e vacas ocupam as ruas sem nenhuma lógica. Não existem leis de trânsito, semáforos, muito menos contramão. Impera a lei do mais barulhento. Aqui, as pessoas buzinam para sinalizar que estão atrás de outro automóvel. Os ônibus e caminhões têm placas nas traseiras que dizem: 'Buzine, por favor'. É um aviso de que ele não pode dar ré a qualquer momento. Acho que o espelho retrovisor é um enfeite. E deve ser por isso que a meditação nasceu aqui!

Marquei minha passagem de volta. Dias depois, ele me fez uma surpresa. Disse que iria pedir a um monge budista tibetano para nos casar. Fiquei completamente estupefata. Disse sim na hora, mesmo com frio na barriga. Sabia que estava sendo impulsiva, mal o conhecia, mas tinha o pressentimento de que daria certo. Além do mais, a maioria das decisões importantes da minha vida tinha sido tomada dessa forma.

Contei para a minha família e amigos por e-mail a grande novidade e depois liguei para a minha mãe. Ninguém acreditava. Disse que estava apaixonada e todos me apoiaram na decisão. Lamentaram não poder ir à cerimônia. A família dele ficou muito feliz, mesmo eu sendo estrangeira. Afinal, ele iria cumprir a missão social mais importante da vida: casar. Sem ele saber, seus pais já haviam até colocado anúncios no jornal, na seção de classificados de casamento, divididos por castas, o que é comum por aqui, mesmo para os homens. Antes de me conhecer, ele já havia passado pela constrangedora situação de ir a vários encontros às escuras. O casamento arranjado ainda é a principal forma de união entre os indianos. O pagamento do dote - aquele que as sogras tanto adoram - também é comum. A gente brinca com esses hábitos arcaicos que ainda existem na Índia, um país que vive em vários séculos ao mesmo tempo. Felizmente, Shobhan vive no século 21.

Nos casamos duas semanas antes de eu voltar para o Brasil. A cerimônia budista foi simples e durou 40 minutos. Sentamos em almofadas diante da mesa do monge, que falou o tempo todo em tibetano. Não entendi nada. Depois Shobhan me disse que o sermão versava sobre Buda e seu significado. A ceia foi vegetariana, é claro. O cozinheiro era do Butão e preparou um menu delicado, bem menos apimentado que o indiano, com o qual meu estômago ainda não fez as pazes.

Depois de casada, tive a minha primeira experiência como patroa na Índia. Nunca tinha tido uma empregada doméstica, até porque não conseguia me comunicar com elas em híndi. Por essa experiência, descobri que o sistema de castas ainda está enraizado nas cidades. A moça fazia a faxina do apartamento, mas ignorava o banheiro. Quando perguntei a Shobhan por que ele não pedira a ela que limpasse também o banheiro, ele me olhou espantado, com um olhar que me fez sentir uma assassina: 'Você queria que eu pedisse isso a ela? Nunca, não poderia!'. E me explicou que a moça não pertencia à casta de limpar o banheiro. As famílias costumam ter vários empregados, um para cada tarefa.

Cinco meses depois do casamento nos mudamos para a capital, Nova Délhi, onde vivemos até hoje. É o centro dos correspondentes estrangeiros por ser a sede do governo central e das embaixadas. Shobhan pediu transferência dentro do mesmo jornal para me acompanhar. Em Délhi, o assédio dos homens é pior do que em Mumbai. Apesar de tímidos, eles são extremamente machistas. São mais agressivos e menos acostumados à presença das mulheres em ambientes dominados por homens. Não se veem muitas mulheres nas ruas, trabalhando em lojas, vendendo produtos. Tradicionalmente, a mulher ficava em casa e o homem saía para trabalhar. Eles dominam até os salões de cabeleireiros. Aqui, pedicures e manicures são homens.

Nova Délhi é uma das cidades com mais alto índice de estupro e agressões a mulheres na Índia. Os homens tentam dar passadinhas de mãos nas pernas e nos seios -uma obsessão dos indianos -, especialmente em ambientes com muita gente. Por isso, Shobhan queria me acompanhar na rua, pedia para eu não andar sozinha de rickshaw (aquele triciclo motorizado muito comum na Ásia). Casos de motoristas que levam mulheres para lugares ermos e as estupram são comuns. Levei várias passadas de mão até aprender que não se deve encarar os homens na rua, mesmo com cara feia. O ideal é desviar o olhar e proteger o peito cruzando os braços, principalmente em aglomerações. Hoje, ando com um spray de pimenta para jogar nos olhos dos eventuais agressores.

Alugamos um apartamento no terceiro andar com um imenso quintal de frente para um parque. É um lugar privilegiado. O único porém são as visitas inesperadas dos macacos. Shobhan sempre liga para me lembrar de não deixar a porta de casa aberta enquanto estou na espreguiçadeira do quintal pegando um solzinho: os macacos costumam entrar nas casas e roubar comida e objetos de valor, como celulares. Na minha, eles ainda não conseguiram furtar nada.

A família de Shobhan não foi ao nosso casamento. Sua irmã passou por uma cirurgia grave e de emergência no mesmo dia. Ficaram chateados, nos ligaram, pediram desculpas. Entendi a situação. Mas descobri depois que Shobhan estava magoado e não queria rece bê-los na nossa casa. Com essa demora em conhecer a família, já estava achando que eles não tinham me aceitado. O mito da sogra assassina só aumentava e até virou piada entre meus amigos e familiares.

Sete meses depois do casamento, os pais dele vieram nos visitar, quando a raiva já havia passado. Minha sogra me surpreendeu e foi muito doce. Me abraçava e me beijava muito, o que ela não faz nem com os filhos, porque na Índia eles só agem assim quando as crianças são bem pequenas. Apesar de não falar inglês, entende. Sorria enquanto eu falava. Meu sogro também foi educadíssimo, com um inglês maravilhoso, inteligente e bem informado. Foi um alívio. Tive que mandar um relatório imenso e detalhado para a minha mãe, que, no fundo, estava morrendo de medo de eu ter entrado em uma roubada.

Só depois de casada me senti à vontade para contar a ele sobre meu medo de andar de táxi. Logo que cheguei, uma ratazana resolveu subir no colo de um amigo dentro do táxi. Como fui perceber depois em vários episódios macabros, os indianos não costumam matar esses bichos para não ter carma ruim na próxima vida (nora pode, mas bicho...). Ou seja, não é só a vaca que tem vidão na Índia. Os ratos, baratas e aranhas que aparecem nas casas e dentro dos carros são apenas expulsos, sem danos a sua integridade física. Esse foi um capítulo à parte no meu casamento. No início da convivência a dois, Shobhan se recusava a matar baratas - que eu odeio com todo o coração. Mas, felizmente, o meu ódio prevaleceu e ele entendeu que as baratas não têm espaço na nossa vida. Nem nessa nem em outra encarnação: chinelo e spray nelas! (Só que tive que dar o braço a torcer quando uma bichinha se aproximou do meu pé durante uma entrevista do Dalai Lama. Estava na primeira fileira, pertinho do Dalai. Shobhan, do meu lado, viu meu pavor e me advertiu: se matasse a baratinha, perderia todas as fontes de informação budistas presentes, além da possibilidade de entrevistar o líder budista. Em nome do jornalismo, não matei, mas assoprei a bicha, que felizmente foi embora).

Não, não foi uma roubada. Nem o casamento, nem o marido, nem a sogra, nem o restante da família. Foi um grande presente que a Índia me deu. Mas morar aqui continua sendo um desafio, confesso. Quanto às ratazanas, já consigo até encará-las perto de mim, desde que não venham para o meu colo, é claro. Prefiro elas, as baratas, as aranhas e os macacos ladrões aos homens machistas e incovenientes de Délhi.'

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